RACISMO EM DIVINÓPOLIS: cabelo crespo não pode aparecer na foto de identidade

Escrito por em 21/11/2020

Sara Policarpo, de 25 anos, mora em Itaúna, região Centro Oeste de Minas, e foi à cidade vizinha Divinópolis na sexta-feira, 20/11, para fazer no posto UAI do governo do Estado um novo documento de Identidade. Ela levou uma foto que havia tirado no celular e mandou imprimir em formato 3×4 para anexar ao documento. De acordo com Sara, a foto não foi aceita no posto UAI pois não estava com a distância correta e os pontos de identificação que são colocados no documento, poderiam cobrir o rosto dela.

Sara então foi a uma loja de fotografias localizada em frente ao posto UAI para fazer a nova foto e aí começaram os problemas. O fotógrafo, um homem branco, disse a Sara que ela deveria “esconder o cabelo dela”. Sara estava com o cabelo preso no alto da cabeça e, segundo ela conta, foi ao banheiro e tentou mudar o penteado de forma que o cabelo ficasse um pouco mais escondido. Ainda assim, quando fez a foto o fotógrafo disse a ela que o cabelo ainda estaria aparecendo. Ele disse, segundo Sara, que o cabelo dela não poderia aparecer na foto pois o posto UAI não aceitaria.

Nesse momento, segundo relatos de Sara, o fotógrafo abriu o computador da loja e “retirou todo o cabelo dela que aparecia na foto” usando um programa de edição de imagens. Sara conta que quando o fotógrafo abriu o programa no computador ela viu fotos que também foram editadas de várias pessoas negras.

Sara explica que o problema não foi que o cabelo estava cobrindo partes do rosto dela e assim poderia dificultar a identificação, pois ela já estava com o cabelo preso:

Criança

Sara relata ainda que no mesmo dia 20/11, coincidentemente Dia da Consciência Negra, uma criança de cerca de cinco anos de idade passou pela mesma situação de racismo que ela. A criança, de acordo com Sara, teve de refazer a foto e teve o cabelo apagado. A filha de Sara, que tem a pele clara e os cabelos cacheados por ser filha de um pai branco, não passou pelo mesmo problema da criança negra de cabelo crespo. A foto para a identidade da filha de Sara foi tirada no mesmo local e os cabelos cacheados dela apareceram sem que ela tivesse que passar por nenhuma edição de imagem.

Abalada

Sara conta que o que aconteceu a deixou tão abalada que ela saiu da loja sem aceitar a fotografia da forma como foi feita e acabou desistindo também de fazer o documento. Ela precisará voltar ao posto UAI para fazer o documento. Sara não tem uma cópia da foto dela editada.

Confira os áudios que Sara enviou a um grupo de amigas no momento em que passou pelo episódio de racismo:

Confira a foto que Sara levou e não foi aceita por não estar na distância correta:

Foto de Sara Policarpo que não foi aceita na UAI por não estar na distância correta. Foto: acervo particular

Confira os pontinhos que são feitos na identificação dos documentos, conforme a atendente do UAI explicou a Sara:

Pontos de identificação que são colocados no documento de Identidade. Foto: acervo particular

A foto que Sara usou como base para fazer a primeira versão 3×4 que levou já impressa:

O cabelo de Sara estava desta forma quando ela foi fazer a foto em Divinópolis:

Desdobramentos

Sara Policarpo está sendo assistida pela advogada Cristiane Lara e na segunda-feira será encaminhada uma notícia crime para o Ministério Público de Minas Gerais.

Jornalismo Grupo Rádio Clube de Itaúna

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Opiniões dos leitores
  1. Márcly Guimarães Pereira   Em   22/11/2020 at 11:35

    É inaceitável em pleno século 21, termos esse tipo de atitude. Precisamos nos unir e parar com isso. Os casos estão aumentando kda vez mais. Pobre de espírito essas pessoas que se acham no direito de agirem assim.

  2. Giovane   Em   23/11/2020 at 12:08

    Esse caso está super estranho. Tá lembrando o da Jamile Edaes que inventou que sofreu racilmo no Grall de Oliveira e que quiseram tirar o filho dela que era branco. Câmeras de segurança mostraram que sequer ela entrou no banheiro e hoje responde por denunciação caluniosa em Perdões. Nesse caso aí, sinceramente, fotógrafo, desde que ela pague e não volte se o instituto de identificação não aceitar a foto, tiraria foto até dela pintada a ouro. Cade a foto editada, cadê o RG pronto (esse que mostrou é antigo). E por qual razão cobrir a foto se está mostrando outra. Já tivemos vários episódios de RG, inclusive que não aceitam a pessoa sorrindo para não atrapalhar a identificação. Foto de RG é para identificar a pessoa. Nem maquiagem em excesso aceitam. Mas enfim, tem que ser apurado esse caso. Ela, assim como a Jamile, pode ter inventado só para se promover. Se alguém cometeu racismo, seja fotógrafo ou funcionário do instituto de identificaçaõ ,que o denuncie em lugar de postagens no instagram.

  3. Carlos Alberto   Em   23/11/2020 at 14:55

    Sou negro com muito orgulho por ser cidadão honrado, e sinceramente gostaria de estar equivocado mas acho que essa história está muito mau contada. Se a intenção dela foi aparecer, com certeza conseguiu.

  4. Helena Gross   Em   23/11/2020 at 21:53

    É lamentável que isso esteja acontecendo. Fico envergonhada com atitudes desse tipo de gente pobre de espírito . Num país onde a grande maioria tem descendência afro um fotógrafo quer mudar o cabelo da pessoa. Um absurdo! Precisa ser apurado isso.

  5. Raqueline   Em   23/11/2020 at 23:16

    Estou tentando até agora achar onde o fotógrafo foi racista nessa história. Com tantos atos realmente racistas no nosso país e vem um caso desse tipo? Me poupem e se poupem
    Se o órgão exige um padrão para os fotos e fotógrafo já está acostumado a fazer do jeitinho que eles exigem, se ele fosse uma pessoa desonesta ou anti profissional ele entregaria as fotos do jeito que ela queria e receberia o dinheiro. Mas nesse caso ele tentou ajudar para que a Foto não fosse reprovada.
    Agora expõe um trabalhador de uma forma como se ele fosse um racista, que maltratou e ofendeu uma pessoa. Que isso né gente.
    São esses tipos de atos que enfraquecem a causa quando legítima.

    • Estefania   Em   25/11/2020 at 12:54

      Minha irmã passou pela mesma situação aqui na minha cidade semana passada pra uma foto pro Coren dela, e nós sabemos na pele o que é não se encaixar no “padrão” da foto, não venha querer reduzir a luta racista pelo que vc acha válido, afinal vc ter que remover um cabelo natural seu da sua foto de identidade, se não for racismo ou preconceito é o que? Independente se a culpa é do fotógrafo ou do órgão que exige assim, então o órgão tem que mudar as regras, ou você acha válido as mulheres crespas todas andarem de cabeça raspada pra ficar legal na foto? Pq eu não acho! Se não for acrescentar no assunto, se poupe

  6. Magno   Em   24/11/2020 at 17:14

    Trabalhei mais de 05 anos tirando foto 3×4, e posso falar, a uai não aceita infelizmente foto com cabelo grande, todas as vezes que foram foto com cabelo grande foram reprovada e teve que tirar outra foto com cabelo menor ou tirar no Photoshop igual acontecer aí na situação, a foto tem que ser 80% do rosto, se não, não é aceita, infelizmente por esse motivo já tivemos muitos prejuízo, agora a uai deve tirar o corpo fora, falando que aceita mas na verdade não aceita infelizmente, já passei por muito constrangimento por causa desta situação, se houve preconceito nessa situação pelo o que eu entendi, esta sendo praticado pelo órgão que executar a fabricação dos documentos que obriga a todo a confeccionar as foto dentro dos patrões exigidos por eles.

  7. Mayra   Em   24/11/2020 at 21:21

    Eu conheço o fotógrafo e ele é uma pessoa do bem! A lei não permite Photoshop então a senhora está alegando coisas erradas!! A lei da identidade pede que a foto seja focada no rosto da pessoa. Eu conheço ele e ele nunca seria capaz de te ofender desta maneira! Peço encarecidamente que vc repense no que está fazendo e na vida da pessoa que você está prejudicando espalhando isso! Racismo sim é um crime e é algo deplorável!! Porém o que ele fez não foi nada disso, e se te ofendeu, peço que converse com ele e pare de espalhar ódio na vida de um pai de família que só estava fazendo seu trabalho! 🙏🏻

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