Parque das Mangabeiras comemora 40 anos

Escrito por em 13/05/2022

Com área de 240 hectares coberta de vegetação de transição entre mata atlântica e cerrado, na Serra do Curral, o parque é lar de várias espécies e refúgio para a população (foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

“Este lugar é minha vida.” A frase em tom firme e permeada de sentimento vem na voz do vigilante José Rufino Veloso, de 59 anos, conhecedor como poucos de cada palmo do Parque das Mangabeiras, que completa hoje 40 anos e fica aos pés da Serra do Curral, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte – para festejar a data, há uma programação especial. (Veja o quadro.) Bem antes da abertura da unidade de conservação ao público, José, morador do vizinho Aglomerado da Serra, aproveitava bem o espaço jogando bola num “campinho” de futebol existente perto da atual Praça das Águas e inventando moda nas travessuras da infância.

 

Mais tarde, aos 16 anos, José foi trabalhar como servente de pedreiro na construção do parque, vendo em ação o paisagista Roberto Burle Marx (1909-1994), responsável pelo projeto do Mangabeiras, um “quarentão” com rica biodiversidade (total de 392 espécies já identificadas), equipamentos de lazer distribuídos em 240 hectares, na área de transição entre mata atlântica e cerrado, excelente para descanso, contemplação, passeio e pesquisas de fauna e flora. 

Ao olhar cada árvore, planta, animal, José reafirma sua admiração pelo parque, tombado como patrimônio do município desde 1991. “Até quando estou de folga venho aqui. E trago sempre meus 11 filhos e 13 netos”, conta o homem, que trabalha há 28 anos como vigilante da unidade, administrada pela Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica (FPMZB). “Precisamos preservá-lo, e também o entorno, constantemente. Nem sei o que seria da cidade sem ele”, diz o mineiro natural de Raul Soares, na Zona da Mata, e residente na capital desde criança.

 

O presidente da Fundação de Parques Municipais e Zoobotânica, Sérgio Augusto Domingues, alerta para a necessidade de preservação(foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

 

O vigilante José Rufino Veloso conhece a região desde criança, antes da criação da unidade de conservação(foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

Edmilson Souza e Adriana Barbosa aproveitam a manhã de sol com o filho Rafael Souza, no Mangabeiras(foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

Neste tempo em que a Serra do Curral se encontra ameaçada pela mineração, ainda mais após a licença concedida pelo Conselho Estadual de Política Ambiental (Copam) à Taquaril Mineração S/A (Tamisa) para início de atividades, o Parque das Mangabeiras, o maior de BH, mostra sua importância em vários aspectos, principalmente na interação com áreas públicas e privadas próximas. Para começar, está inserido no conjunto reconhecido como patrimônio mundial por fazer parte da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, reconhecida pela Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco). “O parque é zona núcleo da Reserva da Biosfera da Serra do Espinhaço, uma área de proteção integral de ecossistemas”, explica o presidente da FPMZB, biólogo Sérgio Augusto Domingues.

 

Corredor ecológico

 

Em resumo, o Mangabeiras, e os parques Baleia (estadual), Paredão da Serra do Curral e Fort Lauderdale, compõem, em conjunto, um valioso corredor ecológico, condição que garante riqueza da biodiversidade e preservação das espécies. “Há grande necessidade de proporcionar conectividade no Quadrilátero Ferrífero entre as unidades de conservação públicas e privadas existentes. Quando isoladas, as espécies animais e vegetais ficam vulneráveis, por isso é fundamental que a Serra do Curral não sofra mais impactos ambientais, pois está circundada de atividades minerárias. Lamentavelmente, essa questão ambiental essencial à vida e à natureza foi ignorada no processo de licenciamento da mineradora Tamisa”, explica Sérgio Augusto.

 

Nas décadas de 1960 e 1970, a área do Mangabeiras era ocupada pela mineração, a cargo da empresa Ferrobel. Com a criação do parque e inauguração em 13 de maio de 1982, esse local pode ser considerado um exemplo de “reconversão de áreas mineradas”, o que se traduz pela destinação sustentável do local impactado e hoje visitado por milhares de pessoas – aos domingos e feriados, a média é de 3 mil.

 

“É essencial um parque urbano ter uso público”, afirma Sérgio Augusto, neste momento na companhia do gerente do Mangabeiras, Rodrigo Roscoe, e da bióloga e educadora ambiental Nadja Simbera, olhando reproduções dos projetos feitos por Burle Marx. “Temos aqui uma joia ambiental, com os planos de manejo e de conservação implantados, Grupamento Ambiental da Guarda Municipal para patrulhamento da área, e recebendo visitantes de todos os cantos da cidade e turistas de outros estados e países”, orgulha-se.

 

Laboratório vivo

 

Na manhã ensolarada de terça-feira, diante do lago com carpas na Praça das Águas, o presidente da FPMZB citou os vários aspectos que fazem do Parque das Mangabeiras não só um refúgio da biodiversidade e equipamento para o turismo e o lazer da população como um valoroso “prestador de serviços” ao clima de BH, à produção de água, à arborização, à polinização e à vigilância sanitária. “Trata-se de um verdadeiro laboratório vivo, um universo que demanda permanentes estudos com pesquisas desenvolvidas por especialistas da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), da PUC Minas e outras instituições de ensino superior.”

 

Caminhando pelo parque, Sérgio Augusto faz uma comparação:  “Como todo o conjunto montanhoso da Serra do Curral, o Parque das Mangabeiras atua na regulação climática, funcionando como um sistema de ar-refrigerado para Belo Horizonte”. Outro aspecto se refere à produção de água, embora, ao longo do tempo, tenham sido registrados graves impactos de rebaixamento de lençóis freáticos, causados pela mineração, e consequentemente redução do número de nascentes.

 

A unidade de conservação presta outros serviços ambientais como a retenção de poeira, reduzindo a poluição atmosférica gerada pela mineração no entorno, e altamente prejudicial à saúde dos moradores da capital. Além disso, é um banco de sementes para posterior dispersão do material genético pelos insetos e pássaros. Na longa lista de contribuição à região, a região funciona como indicado para o setor de zoonoses. No caso da febre amarela, que assolou BH há alguns anos, os macacos funcionam como sentinela para a circulação do vírus, dando o alerta para a vigilância epidemiológica.

 

Orgulho da cidade

 

Jovens com seus skates, casais de namorados à sombra de uma árvore, fotógrafos escolhendo os melhores ângulos, homens e mulheres no treino matinal – todos os caminhos levam ao Parque das Mangabeiras. Na pista, o estudante de economia Otacílio Júnior, de 24, faz suas manobras com o skate, e, logo depois, elogia a tranquilidade e a segurança. “Morei um tempo na Austrália, e desde que voltei, há um ano, venho sempre. É um patrimônio da cidade, precisa ser 100% preservado.”

 

Na manhã de terça-feira, Rafael, de 1 ano, estreava no parque, ora no colo dos pais, Edmilson Souza, técnico de enfermagem, e Adriana Barbosa, psicóloga, ora querendo ir para o chão. Morador do Bairro Santo Antônio, na Região Centro-Sul, o casal conhece o espaço há tempos, e aprecia, de forma especial, a Praça das Águas. “O contato com a natureza faz muito bem”, observa Adriana, enquanto, para o marido, serve para aliviar tensões, principalmente para quem tem uma profissão como a dele, ainda mais em tempos de pandemia.

 

No passeio, atrativos para todos os gostos, idades e objetivos: Ciranda de Brinquedos (espaço de lazer para as crianças com playground, cidade de bonecas, escorregador, entre outros); parque esportivo, com quadras poliesportivas, de tênis e peteca; pistas de esportes radicais, para skate, patins e bicicross; Ilhas do Passatempo, que contam com áreas arborizadas com mesinhas e bancos para apoio para a prática de piqueniques; e Mirante da Mata, de onde é possível apreciar grande porção da vegetação do parque e ainda visualizar parte da capital.

 

Paraíso verde

 

Cada passo, uma descoberta: pode ser o conjunto de nove árvores de pau-brasil, o voo da borboleta capitão-do-mato, aquela de asas azuis, o movimento arisco de um quati, o espelho-d’água com as carpas ou o morro do Chapéu da Bruxa, na Serra do Curral. Ver para crer, andar para conhecer. Segundo a FPMZB, o parque conta com fauna diversificada, sendo um total de 392 espécies identificadas até o momento. Há 138 espécies de aves, entre elas o jacu e a saracura, observados mais facilmente pelos visitantes; cerca de 40 mamíferos, entre eles quati, mico-estrela, caxinguelê (esquilo), ouriço-cacheiro e tatu-galinha. Das 20 espécies de anfíbios, merece destaque a descoberta no local de uma rã que conta com nome bem típico, Hylodes uai. Há registradas, ainda, três espécies de peixes, 18 répteis e 273 invertebrados.

 

Os técnicos explicam: no Parque das Mangabeiras, a vegetação encontrada é uma transição entre o cerrado e a mata atlântica. As florestas são compostas por matas de galeria, que margeiam os cursos d’água e são sempre verdes e exuberantes. A porção mais baixa das encostas é ocupada pelas matas estacionais, que perdem parte das folhas na estação seca. Nas matas, ocorrem espécies como a copaíba,  jatobá, jacarandá, açoita-cavalo e pau-jacaré.

 

Já o cerrado pode ser encontrado na porção mais alta das encostas, onde o solo é mais raso e pode apresentar afloramentos de rocha. Nessas áreas, destacam-se espécies como barbatimão, candeia, murici, pau-terra, pau-santo e também as mangabeiras, espécie que dá nome ao parque.

 

Desde 2020, a equipe do Jardim Botânico da FPMZB realiza levantamentos sistemáticos da flora local. Até o momento, foram identificadas cerca de 350 espécies. Em nota, a equipe da fundação informa que a diversidade biológica da unidade de conservação ainda requer muitos estudos que a caracterizem, pois se trata de um dos principais remanescentes da região que, junto com a Mata da Baleia, Jambreiro e outras áreas de matas úmidas e de altitude que compõem a APA Sul, forma um importante corredor ecológico da Região Sul de BH e entorno.

 

Programação

 

Relação das atividades gratuitas para comemorar os 40 anos do Parque das Mangabeiras

  • Sexta-feira (13) e sábado (14) – Exposição “Parque das Mangabeiras 40 anos – História, lazer e preservação ambiental”, na Praça das Águas (próximo à lanchonete), das 9h às 16h
  • Sábado (14) – Rua de Lazer da Secretaria Municipal de Esportes e Lazer (pula-pula, cama elástica, pintura facial e outros brinquedos), das 10h às 14h
  • Sábado (14) e domingo (15) – Feira de Economia Solidária, promovida pela Secretaria Municipal de Desenvolvimento Econômico, das 8h30 às 16h30
  • » O Parque Municipal das Mangabeiras fica aberto de terça a domingo, das 8h às 17h (com entrada até as 16h). O endereço é Avenida José do Patrocínio Pontes, 580, Bairro Mangabeiras, Região Centro-Sul de BH
  • Para acesso ao parque é necessária a vacinação contra a febre amarela. Caso o visitante não esteja com o comprovante, deverá preencher uma declaração, disponibilizada no local, de que já se encontra imunizado (vacinado há pelo menos 10 dias). Menores de nove meses, por não poderem ser imunizados contra a doença, não podem acessar o parque.

 

 

Todos os Sentidos

 

Veja algumas razões para conhecer o Parque das Mangabeiras

 

Plantas aquáticas em lago no Parque das Mangabeiras(foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

» Contemplar as carpas, na Praça das Águas…

Exemplar da flor pata-de-vaca no Parque das Mangabeiras(foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

» …e também as plantas aquáticas, a exemplo da ninfeia, com flores brancas, vermelhas e lilás.

 

» Ver o conjunto de nove árvores de pau-brasil, perto da administração

Árvore Pau ferro no Parque das Mangabeiras(foto: Jair Amaral/em/d.a press)

 

 

 

» Conhecer árvores da mata atlântica, a exemplo do pau-ferro…

 

» …e a florida pata-de-vaca colorindo a paisagem

 

» Para esportes radicais, tem a pista de skate, que também pode ser usada para as modalidades de patins e bicicross (BMX).


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