Intervalo entre aplicação de doses da CoronaVac em BH supera 30 dias

Escrito por em 31/03/2021

Por Jornal O Tempo

Depois de muita espera, finalmente chegou a vez da aposentada Maria Aparecida de Oliveira Mota, 72, receber a dose da esperança por dias melhores em meio à pior pandemia do século. No último sábado (27), ela foi imunizada com a primeira dose da coronavac no posto de vacinação drive-thru instalado no Shopping Boulevard, na região Leste de Belo Horizonte. Porém, bastaram alguns minutos para vir uma nova preocupação: a data para recebimento da segunda dose foi marcada para o dia 26 de abril, um intervalo de um mês.

“A moça falou que o prazo foi alongado e aconteceu com todo mundo que tomou nesse dia. Estou receosa, é tempo demais entre uma dose e outra e não sei se pode comprometer a eficácia. Já tinha esperado tanto para tomar a vacina”, contou. Na mesma data, Hieronides Maria Coelho, 72, recebeu a dose inicial da vacina no posto de saúde do bairro Ipiranga, na região Nordeste da capital. “Também colocaram a segunda dose para o dia 26 de abril. Não explicaram o motivo e fiquei preocupada, já que amigos que tomaram antes tiveram o prazo menor”, explicou.

No bairro Vera Cruz, na região Leste, a mesma situação aconteceu com o aposentado Rui Dias, 72, que também foi imunizado com a coronavac. A filha, Cristiane Dias, 48, teme que a imunização contra a doença não seja totalmente eficaz por conta desse período maior. “Tem segurança e a mesma eficiência com a aplicação da segunda dose em 30 dias? Todo medicamento precisa seguir o que fala a bula e tenho medo até de inutilizar a primeira dose. No posto de saúde falaram que a orientação agora era esse prazo”, questionou.

Responsável pela produção do imunizante no país, o Instituto Butantan informou que os estudos clínicos recomendam um intervalo de aplicação das duas doses entre 14 e 28 dias. Sobre eventuais riscos de adotar um cronograma diferente, a entidade afirmou que a decisão é de responsabilidade dos gestores locais. No início da semana passada, o Ministério da Saúde chegou a recomendar o fim da reserva das doses recebidas para a segunda aplicação – com a mudança, as remessas atuais poderiam ser todas aplicadas na primeira dose para ampliar o número de pessoas vacinadas.

Sem riscos

Já a infectologista Claudia Murta de Oliveira lembrou que o atraso não afeta a eficácia do imunizante. “Isso vale também para outras vacinas. Dose dada é dose contemplada, e não precisa reiniciar o esquema vacinal. Caso não tenha ocorrido com 14 a 28 dias, pode ser aplicada a segunda dose assim que possível, mesmo que seja com 30 ou 40 dias. Mas o ideal é que a imunização aconteça assim que estiver disponível”, destacou.

A especialista lembra que a segunda dose é uma espécie de reforço que estimula o corpo a produzir um número maior de anticorpos que protegem contra a Covid-19. Em geral, as duas aplicações da coronavac tem eficácia de 50,38%, ou seja, reduz pela metade a possibilidade de desenvolver sintomas. Para casos moderados ou graves, que levam à internação, o índice é 100%, conforme o instituto. Estudos divulgados no início do mês ainda apontaram que a vacina é eficaz contra as três variantes que circulam no país.

O presidente da Sociedade Brasileira de Imunizações (SBIm), Juarez Cunha, enfatizou que, apesar dos testes do imunizante apontarem o intervalo de quatro semanas com as melhores respostas imunológicas, o atraso da segunda dose não traz nenhum risco. “A única coisa que pode acontecer é demorar um pouco mais a atingir a melhor performance por conta desse atraso. Mesmo que o prazo tenha sido excedido, deve ser aplicada a segunda dose. Podemos ter várias situações que impeçam de fazer o procedimento no momento marcado, como um outro problema de saúde, imprevisto, qualquer situação que possa atrapalhar em fazer na data prevista. Não é nenhum problema, basta aplicar logo que for possível”, concluiu.

Porém, um intervalo maior aumenta as chances do imunizado ficar doente enquanto aguarda a segunda aplicação. É o caso do cantor Agnaldo Timóteo, 84, que foi contaminado dias após tomar a primeira dose e, por conta do agravamento do quadro de saúde, precisou ser entubado em um leito de UTI. “Só pode se considerar vacinado quando completar as duas doses. E depois disso, ainda leva no mínimo duas a quatro semanas para ter uma proteção completa”, enfatiza a farmacêutica Manuela Duarte, que também é diretora da Maximune Vacinas.

Cuidados devem ser mantidos mesmo após a imunização

Por conta da possibilidade de contaminação, a especialista lembra que os cuidados devem ser mantidos mesmo que a pessoa já tenha se imunizado – nesta semana, recebem as vacinas na capital idosos com mais de 69 anos e profissionais de saúde. “O idoso, que já tem um sistema imunológico debilitado, deve ter ainda mais atenção e manter todos os cuidados, como o distanciamento social e o uso de máscaras. A pessoa acha que está imunizada, mas também tem esse tempo para garantir uma maior proteção”, disse Duarte.

A farmacêutica pontuou ainda que, caso a pessoa seja do grupo prioritário e tenha sido infectada pelo vírus antes de tomar a primeira dose, deve aguardar 30 dias após o início dos sintomas para ser imunizada. “Foi uma recomendação do Ministério da Saúde para não prejudicar a eficácia da vacina”, informou. Por fim, a especialista alertou que a população não deixe de se imunizar contra a gripe. “Tem muitos idosos que não estão se vacinando para esperar a da Covid-19 por medo de perder a sua vez. Só que não acontece isso, pode se imunizar, aguardar os 14 dias necessários entre uma vacina e outra”, declarou.


Opiniões dos leitores

Deixar um comentário

Seu endereço de e-mail não será publicado.Campos obrigatórios marcados com *



[Não há estações de rádio no banco de dados]