Alimentos transgênicos: afinal, eles são perigosos para a saúde ou não?

Escrito por em 09/02/2022

Transgênicos
Imagem: Chiara Zarmati/The New York Times

 

Parece que é da natureza humana resistir a mudanças e temer o desconhecido; assim,
não é surpresa que a engenharia genética de alimentos seja condenada por muitos
consumidores, que parecem tão apavorados de comer uma maçã com um gene
antiescurecimento ou um abacaxi geneticamente enriquecido com antioxidante quanto eu
tenho de usar carros autônomos.
Caminhando pelos corredores de um supermercado você encontra muitos produtos
classificados como “livre de transgênicos”, mas é muito mais difícil detectar pequenas
letras informando que aquele alimento é “parcialmente produzido por engenharia
genética”, resultado de uma lei federal americana de 2016 que obriga a rotulagem
uniforme de todos os produtos alimentares que contenham ingredientes geneticamente
projetados.

A exigência surgiu em resposta à pressão pública e a uma série de leis estaduais
confusas. Apesar de eu apoiar o direito do público à informação e a rotulagem honesta de
todos os produtos, é importante ter em mente que isso pode ser enganoso. Agricultores e
cientistas modificam geneticamente os alimentos há séculos, através de programas de
reprodução que resultam em uma troca descontrolada de material genético. O que muitos
consumidores podem não perceber é que há décadas, além de cruzamentos tradicionais,
cientistas agrícolas utilizaram radiação e produtos químicos para induzir mutações
gênicas em culturas comestíveis, na tentativa de atingir características desejadas.
A engenharia genética moderna difere em dois pontos: apenas um ou alguns novos genes
com uma função conhecida são introduzidos em uma lavoura; às vezes a novidade
provêm de uma espécie diferente. Assim, um gene para adicionar tolerância a geadas ao
espinafre, por exemplo, poderia vir de um peixe que vive em águas geladas.

Embora noventa por cento dos cientistas acreditem que os transgênicos sejam seguros —
visão apoiada pela Associação Médica Americana, a Academia Nacional de Ciências, a
Associação Americana para o Avanço da Ciência e a Organização Mundial de Saúde–
pouco mais de um terço dos consumidores compartilha dessa crença. Não é possível
provar que uma comida seja segura, apenas dizer que não há perigo aparente. O medo
dos transgênicos ainda é teórico, assim como a ideia de que inserir um ou mais genes em
um alimento poderia ter um impacto negativo sobre outros de seus genes naturais.
As preocupações mais comuns, que não foram claramente demonstradas, são mudanças
indesejadas nos valores nutricionais, a criação de alérgenos e efeitos tóxicos em órgãos.
Desde que os alimentos geneticamente modificados começaram a chegar ao
mercado, décadas atrás, nenhum efeito adverso para a saúde dos consumidoresfoi
registrado –o que não quer dizer que não exista. O fato é que, por mais que os
adversários da tecnologia procurem, nenhum foi definitivamente identificado.

De acordo com uma entrevista na revista Scientific American, com Robert Goldberg,
biólogo molecular botânico da Universidade da Califórnia em Los Angeles, tais receios
não foram suprimidos apesar das “centenas de milhões de experiências genéticas
envolvendo cada tipo de organismo na Terra e os bilhões de refeições feitos por todos,
sem que haja algum problema”.

Estabelecer a segurança em longo prazo exigiria décadas de estudos caros, com
centenas de milhares de consumidores de transgênicos e de não transgênicos.
Enquanto isso, vários benefícios impressionantes já foram estabelecidos. Por exemplo,
uma análise de 76 estudos publicada em fevereiro, no periódico Scientific Reports, feita
por pesquisadores de Pisa, na Itália, descobriu que o milho geneticamente modificado tem
um rendimento maior e contém menos toxinas comumente produzidas por fungos.
Esses efeitos provavelmente derivam de uma modificação genética feita para que as
plantas resistam a pragas causadas por insetos, que danificam as espigas e permitem
que os fungos floresçam. Os pesquisadores disseram que a alteração teve pouco ou
nenhum efeito sobre outros insetos. Ao desenvolver essa resistência, os agricultores
puderam usar menos pesticidas e aumentar o rendimento, garantindo sua segurança e a
do meio ambiente, ao mesmo tempo em que reduzem o custo dos alimentos e ampliam
sua disponibilidade. Safras de milho, algodão e soja aumentaram entre vinte e trinta por
cento com o uso da engenharia genética.

Todos os anos, bilhões de animais são criados nos EUA com rações que contém
ingredientes transgênicos, sem evidência de nenhum mal. Na verdade, o desenvolvimento
e a saúde desses animais melhoraram com os alimentos geneticamente modificados, de
acordo com um artigo de 2014 no Journal of Animal Science.
Uma utilização mais abrangente da engenharia genética, especialmente em países
africanos e asiáticos que ainda não possuem a tecnologia, poderia aumentar
significativamente a oferta de alimentos em áreas onde a mudança climática exigirá cada
vez mais que as plantações possam se desenvolver em solos secos e com alta incidência
de sal e tolerar temperaturas extremas. Ainda me incomoda a resistência ao arroz
dourado, uma cultura geneticamente modificada para fornecer mais vitamina A do que o
espinafre e que poderia evitar a cegueira irreversível e mais de um milhão de mortes por
ano.
Mesmo assim, cientistas estão se concentrando cada vez mais no desenvolvimento de
benefícios para a saúde em alimentos comuns. Além do abacaxi que contém licopeno, o
antioxidante do tomate, os tomates estão sendo modificados para incluir o pigmento roxo
do mirtilo, rico em antioxidantes.

As populações de países em desenvolvimento, que enfrentam fome e desnutrição, são as
maiores beneficiadas das tentativas de aumentar a quantidade de proteínas, vitaminas e
minerais nas culturas alimentares. Isso não quer dizer que tudo feito em nome da
engenharia genética seja saudável; são muitas as controvérsias em torno do uso de
sementes geneticamente modificadas de soja, milho, canola, alfafa, algodão e sorgo,
tornadas resistentes a um herbicida amplamente utilizado, o glifosato, cujos efeitos na
saúde ainda não são claros.

Recentemente, foi criada a resistência a um segundo herbicida, o 2,4-D. Embora o
produto da combinação, o Enlist Duo, tenha sido aprovado em 2014 pela Agência de
Proteção Ambiental, já foi associado ao aumento de casos de linfoma não Hodgkin e
alguns distúrbios neurológicos, relataram pesquisadores no International Journal of
Environmental Research and Public Health.

Moral da história: os consumidores preocupados com a crescente utilização de
transgênicos nos alimentos devem encarar o fato de forma mais sutil que a oposição
cega. Em vez da rejeição por atacado, devem se dedicar a aprender o funcionamento da
engenharia genética e os benefícios que ela pode oferecer agora e no futuro, conforme a
mudança climática vai prejudicando cada vez mais a oferta de alimentos, como também
avaliar o apoio a esforços que resultam em produtos seguros e apresentam melhorias em
relação ao original, focando sua oposição sobre os menos desejáveis.


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